terça-feira, 26 de outubro de 2010

Clássicos revisitados

Semana passada esta coluna mostrou o crescimento do sistema all inclusive entre os resorts brasileiros – e localizou o seu o maior polo: o litoral norte baiano, onde oito hotéis com tudo incluído funcionam em cinco endereços diferentes. Nem todos os resorts brasileiros, contudo, aderiram ao sistema. Entre os que não embarcaram na onda estão dois dos hotéis de praia mais tradicionais da Bahia: o Tivoli Eco Resort da Praia do Forte e o Transamérica da Ilha de Comandatuba. Mas não estão parados: cada um a seu modo, os dois resorts reagem à concorrência, colocando a qualidade à frente da quantidade. O Turista Profissional está fazendo um giro pelos resorts de praia do Brasil e conta suas impressões.

Ricardo Freire/AE
Boas-vindas. Baianas a caráter e clima de praia recebem os visitantes no píer do Transamérica



Tivoli, o ecocharmoso


Aberto em 1985 (com o nome Maritim), esse foi o primeiro hotel do País a se intitular um eco-resort. Com motivo: seu fundador, o paulista Klaus Peters, era o dono de praticamente toda a Praia do Forte e planejou a ocupação de maneira a preservar a paisagem e não detonar o meio ambiente. Hoje em dia há quem torça o nariz para as construções de três andares que tomaram conta do centrinho, mas basta comparar com vilarejos de praia que estejam à mesma distância de uma grande capital, como Porto de Galinhas, para ver como na Praia do Forte operou-se um pequeno milagre de crescimento organizado.

Muitas das qualidades do Tivoli são de nascença, a começar pela localização. Poucos resorts no Brasil podem dizer que estão situados na melhor praia da sua região. Peters escolheu a enseada mais bonita da Praia do Forte para instalar seu resort: a curva da praia é pontilhada de coqueiros, o mar é calmo e só não está perfeito quando ocorrem sargaços. O centrinho fica a vinte minutos pela areia – perto o suficiente para ir a pé, mas longe o bastante para manter os turistas da vila por lá. Os blocos de apartamentos foram construídos a uma distância ecologicamente correta do mar; todos os quartos são voltados para a praia (os coqueiros podem impedir a vista, mas não abafam o barulho das ondas).

O belo gramado junto à praia sempre proporcionou sossego a quem não quisesse a música ou as atividades da piscina. Há alguns anos, o número de áreas tranquilas do resort foi aumentado com a instalação do spa de talassoterapia e de uma segunda piscina, sem música, só para adultos. Para as crianças há um clube bem equipado, com atividades de educação ambiental.

Em 2006, o resort foi vendido ao grupo português Tivoli, que ousou pôr a sua marca à frente do nome já consagrado. Confesso que achei estranho. Mas depois de ver o que foi feito nesses quatro anos, dou razão aos portugueses. Sem perder a sua personalidade original, o resort sofisticou-se sensivelmente. Ficou fácil abstrair o tamanho do hotel: você não se sente mais num resortão, e sim num hotel de luxo.

As áreas sociais, os apartamentos master e as suítes foram redecorados, ficaram infinitamente mais charmosos (os hóspedes dos apartamentos standard, que só serão renovados em 2011, ainda percebem a diferença). A pulseirinha foi abolida e substituída por um cartão magnético de identificação. Já não há um móvel de plástico sequer em toda a propriedade. Um beach lounge com bar de champanhe foi instalado à beira-mar. A comida, que já era um dos pontos fortes da encarnação anterior, ficou ainda melhor – dá para falar em gastronomia mesmo, sem aspas. Mesmo no formato bufê, os pratos do jantar (incluído na diária) são inventivos e fazem uso de ingredientes brasileiros. Na noite em que fiquei, havia arroz de pequi, lasanha com carne seca (em vez de bolonhesa, era pernambucana) e um delicioso tempurá de quiabo. Além das estações tradicionais de massas e grelhados, há um cozinheiro a postos fazendo risoto em panela pequena.



A opção pela hotelaria de luxo se reflete nos preços dos extras, que não são baratos. O acarajé da piscina sai R$ 12; o camarão frito, R$ 49; as cervejas (long neck) começam em R$ 7. Mas as batatas fritas custam R$ 10 e um dos restaurantes da praia prepara pizzas na hora do almoço (entre R$ 35 e R$ 50). O tuc-tuc (táxi indiano) até o centrinho, onde está o Projeto Tamar e há restaurantes e barracas de praia, sai R$ 15 em cada perna. O Tivoli Praia do Forte Eco Resort fica a 55 km do aeroporto de Salvador. As diárias para novembro, com café e jantar, começam em R$ 695 no site do hotel (ecoresort.com.br).

Transamérica, o eficiente


Aberto em 1989 (no começo se chamava Transamérica Ilhéus), é desde então o queridinho das famílias de classe média alta de São Paulo. O hotel é um oásis para paulistanos estressados. A começar pelo aeroporto, que fica nos fundos do hotel e recebe jatos. Não há esteira de bagagens: as malas são levadas diretamente do avião para o lobby, onde são identificadas pelos hóspedes depois de uma água de coco e uma sessão de boas-vindas conduzida por baianas a caráter, no píer.

A Ilha de Comandatuba é formada por um braço de mar. O hotel tem cinco quilômetros de frente de praia. Por sinal, a praia é o de menos: de águas turvas e ondas intermitentes, é apenas selvagem. O canal é mais bonito e se presta a mais atividades, como vela, pesca e belíssimos passeios pelo manguezal. O mais encantador desses tours leva a uma lagoa de lama negra medicinal, onde você vai fazer as fotos mais divertidas da sua temporada.

Os apartamentos podem estar no prédio principal, de três alas, ou em bangalôs espalhados pelo coqueiral. Os de categoria luxo e master foram repaginados e estão muito bonitos. Não espere, porém, arroubos de Casa Cor: o Transamérica é um hotel conservador. O mobiliário das áreas sociais está datado, e as cadeiras de plástico nas varandas e na piscina não condizem com o padrão do hotel. Mas ninguém está prestando atenção nisso. O hotel parece entregar exatamente o que a clientela quer. A saber: um serviço supereficiente. Bufês extensos de pratos conhecidos e muito bem executados, com ingredientes de qualidade (também há uma estação de risotos preparados na hora). E uma recreação infantil que não dá dor de cabeça. Foi no Transamérica que as mamães aprenderam a entregar seus baixinhos para os monitores. E agora podem usar o tempo livre para aproveitar o spa estruturado pela L'Occitane (que não opera mais a unidade).

Como concessão à concorrência all inclusive, o Transamérica passou a oferecer o almoço nas suas diárias, passando a funcionar no sistema de pensão completa e, com isso, passou a ter preços competitivos. Nas refeições, apenas as bebidas alcoólicas são cobradas (refrigerantes e água de coco estão incluídos). O jantar no bufê pode ser trocado por um crédito de R$ 20 por pessoa a ser gasto no restaurante da praia.

Os extras têm preços mais em conta do que seria de esperar. O acarajé sai R$ 5; a batata frita, R$ 10; uma Skol, R$ 5 (mas a porção de camarão ao alho e óleo, R$ 72). Há um quiosque de sorvete La Basque (R$ 6,50 a bola, R$ 5 o picolé). A maneira mais conveniente de chegar é por voo charter ao aeroporto do hotel (Una). Os voos regulares já foram retomados, mas ainda são poucos. A TAM faz o trecho Congonhas-Una na quinta e o trecho Una-Congonhas no domingo. Para ficar mais dias, a solução é ir ou voltar por Ilhéus (70 km ao norte). As diárias para novembro começam em R$ 940 no site (transamerica.com.br).

INTERNET PARA VIAGEM


A Resorts Brasil lançou um site para ajudar o consumidor a encontrar o seu resort. Você seleciona a região e os itens de que não abre mão (parque aquático, spa, golfe...) e chega à lista dos associados que têm o que procura. É possível fazer reservas online, comprando só hospedagem ou combinando com aéreo.

DOSSIÊ

Vantagens da meia pensão

“Camarão, por favor”. Num all inclusive você só pode comer o que está nos bufês, preparado para todos os hóspedes. Nos outros resorts você pede o que quiser – basta estar no cardápio.

“Uma Skol e uma Coca”. All inclusives costumam ter contrato com apenas um fornecedor de bebidas: se o refrigerante é Coca-Cola, a cerveja é Kaiser ou Sol. Se a cerveja é Ambev, o refrigerante é Pepsi.

Passeios sem culpa. Se você planeja passear fora do resort, a meia pensão faz mais sentido. Você pode passar o dia inteiro perambulando sem achar que não fez valer inteiramente a sua diária all inclusive.

Garçom x fila. Resorts lotados têm serviço lento. Num resort convencional, você talvez espere pelo garçom na piscina. Mas num all inclusive, o mais comum é que você tenha que enfrentar fila.

BILL CHASH
Nosso especialista em viagens perdulárias
“Eu sei que você é um entusiasta do all inclusive, mas, me desculpe: se você me vir num hotel desses, pode ligar 191 que é sequestro. All inclusive só em hotéis chiques – tipo esses da Patagônia ou do Atacama. Ou na Ponta dos Ganchos, onde dá para pedir ostras a toda hora.”

Nenhum comentário:

Postar um comentário