terça-feira, 8 de março de 2011

Turismo vê aumento no Carnaval, mas esbarra em carências estruturais

Apenas no Rio, no período carnavalesco, Riotur espera 760 mil turistas

Apesar da valorização do real e do recente aumento da inflação, o Brasil vive a expectativa de receber mais visitantes no Carnaval deste ano. Mas analistas avaliam que o crescimento do turismo ainda está abaixo do potencial do país devido a carências estruturais.

Apenas no Rio de Janeiro, a expectativa é de que 760 mil turistas visitem a cidade durante o período carnavalesco, 4% a mais do que no ano passado, segundo estimativas da Riotur.

Para o diretor de relações internacionais da Abav (Associação Brasileira de Agências de Viagens) nacional, Leonel Rossi, mesmo com a previsão de aumento do turismo, os números do setor no país como um todo ainda estão muito abaixo do potencial.

"Não temos conseguido crescimento significativo. Estamos patinando ao redor de 5 milhões de turistas por ano já há alguns anos. Já deveríamos estar na faixa dos 8 ou 9 milhões", afirma.

Rio

O coordenador do Núcleo do Turismo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Luiz Gustavo Barbosa afirma que o Rio vive um momento decisivo.

"O Rio está em um turning point em que tem que decidir o que quer ser no turismo. Quer continuar sendo um destino médio do turismo mundial, ou quer se tornar um destino mundial grande, consolidado, capaz de comportar grandes eventos econômicos e ser um hub do turismo brasileiro?"

Para optar pelo segundo caminho, avalia Barbosa, a cidade deve continuar buscando soluções para a questão da segurança, suprir a carência de mão-de-obra capacitada "para uma boa recepção do turista estrangeiro" e investir no transporte interno.

"Em cidades como o Rio, onde o turismo se mescla à vida da cidade, a cidade vai ser boa para o turista quando for boa para o cidadão. O desafio primeiro é melhorar a cidade", diz o especialista em planejamento urbano Mauro Osório, professor de Economia na UFRJ.

Osório lista como medidas urgentes a despoluição da Baía de Guanabara, soluções para o saneamento na região metropolitana, avanços na luta contra a violência e a construção de um calendário de eventos que garanta um fluxo mais permanente de turistas.

A Copa do Mundo de 2014 e da Olimpíada de 2016 certamente são um grande chamariz para atrair turistas estrangeiros. Mas Fabio Sá Earp, do Instituto de Economia da UFRJ, diz que é preciso fazer bem o "feijão com arroz".

"Passar pelo megaevento é fácil", observa. "Difícil é a gente conseguir atrair todo ano mais 500 mil turistas."

Lotação

Nos hotéis da cidade, praticamente não há vagas - uma notícia positiva para empresários do setor, mas nem tanto para turistas.

Segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis no Rio (ABIH-Rio), Alfredo Lopes, os hotéis da região turística da cidade terão 99% de ocupação durante o Carnaval neste ano.

Para Lopes, a alta taxa de ocupação não representa um limite ao crescimento do turismo porque os planos de expansão do setor preveem a criação de mais 10 mil quartos no Rio até a Olimpíada de 2016, somando-se aos 30 mil existentes hoje.

Os hotéis no Rio também preveem um número recorde de estrangeiros neste Carnaval: sete entre cada dez turistas devem chegar de outros países.

"Isso é muito bom para a cidade, porque os estrangeiros ficam mais tempo e gastam mais. Já o turista nacional deixa tudo para a última hora. Faz reserva até dentro do carro. As reservas internacionais foram feitas há 60, 90 dias", diz o presidente da ABIH-Rio.

Luiz Gustavo Barbosa discorda da avaliação do setor hoteleiro e diz considerar os turistas brasileiros o maior destaque deste Carnaval.

"O número de estrangeiros pode ser maior em hotéis, mas a cidade está recebendo muito mais brasileiros, que recorrem a outros tipos de hospedagem, como aluguel de temporada, pousadas", diz.

"Os brasileiros estão com força econômica para viajar, e começam a ter uma cultura de viagem mais trabalhada", avalia Barbosa.

De acordo com o economista André Braz, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o custo da hospedagem em hotéis está 11% mais alto hoje do que 12 meses atrás - o aumento é maior do que a inflação no período, que foi de 6,02%.

Aeroportos

A Abav do Rio de Janeiro diz que a venda de pacotes turísticos para o Rio aumentou 15% neste ano em relação ao Carnaval do ano passado.

Na opinião de Peter Wanke, coordenador do Centro de Estudos em Logística do Coppead, instituto de pós-graduação e pesquisa em Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), os aeroportos e rodovias do país estão "no limite", e o crescimento da demanda só tende a aumentar os gargalos.

Com base na análise de dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Wanke diz que os dez principais aeroportos do país "estão com as folgas praticamente zeradas".

"Isso causa o apagão logístico, que é bastante silencioso", afirma. "Ele não impede as pessoas de viajarem, mas tira a previsibilidade de como tudo vai correr e de quanto tempo uma viagem vai levar. Dá para ir tocando, mas de uma maneira cada vez mais precária." BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,turismo-ve-aumento-no-carnaval-mas-esbarra-em-carencias-estruturais,687723,0.htm

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