sexta-feira, 27 de maio de 2011

O que é Hospitalidade - Artigo do ibhe

Reflexões e Definições sobre Hospitalidade

Levantamento por autores

Esta tema é bastante abrangente e requer um estudo mais aprofundado sobre seu significado.  Ela vem de vários séculos através de grande número de ordens religiosas católicas, onde durante toda a Idade Média eram oferecidos alojamentos pelos mosteiros, principalmente para os peregrinos, pobres e enfermos.  Já nos séculos XI e XIV  houve uma mudança nas formas de alojamento em virtude  do desenvolvimento da economia, que passa de hospitalidade  privada para a hospitalidade pública e paga.

Resolvi colocar de forma resumida o conceito pelo olhar de cada autor.  Vale a leitura!!
Finley (1965) em seu “O mundo de Ulisses”, nos explica, didaticamente, o surgimento e o significado da hospitalidade. Para ele, nos tempos primitivos, o homem vivia em estado de luta permanente, de guerra de morte contra o estrangeiro. A seguir, intervieram os deuses e, com seus preceitos, apresentaram aos homens o dever de hospitalidade. Desde então, o homem teria de seguir o difícil caminho entre dois pólos: a realidade de uma sociedade em que o estrangeiro era uma ameaça e o novo ideal moral, “abençoado pelos deuses” e chancelado por Zeus Xenios “protetor do hóspede e do hospedeiro (ambos xenos). Pode-se dizer, então, que são os vínculos de hospitalidade que permitem o apaziguamento e a redução de tensão entre esses dois pólos. Como lembra Gotman, a hospitalidade tem sempre a inospitalidade como horizonte.

Visser (1990) liga o relacionamento entre o anfitrião e o hóspede através da raiz linguística comum dos dois termos. Ambas se originam de uma palavra comum indo-européia (ghostis), que significa “forasteiro” e, por meio disso, “inimigo” (hospitalidade e hostil possuem raiz similar), mas a ligação expressa neste termo simples “refere-se não tanto ao próprio povo, ao hóspede e ao anfitrião, mas ao relacionamento entre eles”. É um relacionamento baseado nas obrigações mútuas e, em última análise, na reciprocidade.  Enfim, o hóspede torna-se o hospedeiro em outra ocasião. (LASHLEY, 2004).

Baptista (2002) define a hospitalidade como um modo privilegiado de encontro interpessoal marcado pela atitude de acolhimento em relação ao outro. As práticas de hospitalidade deverão marcar todas as situações da vida, ou seja, a hospitalidade não deverá ficar circunscrita à disponibilidade para receber o turista, o visitante que chega de fora e está de passagem pela cidade, é necessário que esta atitude de acolhimento e cortesia, seja a todo o próximo, seja o vizinho, o colega de trabalho, um desconhecido.
Derrida (2003), a hospitalidade é, por definição, incondicional, ela está sempre condicionada pelas condições da realidade. Daí o seu oposto, seu paradoxo, sua impossibilidade. Para este autor, a hospitalidade é o nome geral para todas as nossas relações com o outro”.

Para Boff (2005) a hospitalidade é utopia e prática, integra o sonho e a realidade em suas margens. Ou, como ele mesmo diz: A hospitalidade é antes de mais nada uma disposição da alma, aberta e irrestrita. Ela, como o amor incondicional, em princípio, não rejeita nem discrimina a ninguém. É simultaneamente uma utopia e uma prática. Como utopia representa um dos anseios mais caros da história humana: de ser sempre acolhido independente da condição social e moral e de ser tratado humanamente. Como prática cria as políticas que viabilizam e ordenam a acolhida. Mas por ser concreta sofre os constrangimentos e as limitações das situações dadas. 

A hospitalidade é também, segundo Montandon (2003) “uma maneira de se viver em conjunto, regida por regras, ritos e leis”.   Nesse sentido, a hospitalidade é “concebida não apenas como uma forma essencial de interação social, mas também como uma forma própria de humanização, ou no mínimo, uma das formas essenciais de socialização”.

Já Lashley(2004) utiliza-se da reflexão de Visser para afirmar que a hospitalidade é relacionamento. A hospitalidade, sendo a base da sociedade, tem como função estabelecer relacionamentos ou promover um relacionamento já estabelecido. É a possibilidade de encontros que podem levar à relacionamentos, propiciando a troca e o benefício mútuo para o anfitrião e o hóspede.
Se o intuito da hospitalidade é criar e manter relações sociais, o ambiente que a pessoa está passa a ter significado, criando identidade e memória com o mesmo (MARCHES; ANTONIO; SOUZA; CASTALDELLI, 2008).

Selwin (2004) reafirma essa idéia, sobre a função básica da hospitalidade que, segundo ele, além de estabelecer um relacionamento, promove relacionamentos já existentes: Os atos relacionados com a hospitalidade, desse modo, consolidam estruturas de relações, afirmando-as simbolicamente, ou (no caso do estabelecimento de uma nova estrutura de relações) são estruturalmente transformativas. No segundo caso, os que dão e/ ou os que recebem hospitalidade não são mais os mesmos, depois do evento, como eram antes (aos olhos de ambos, pelo menos). A hospitalidade transforma: estranhos em conhecidos, inimigos em amigos, amigos em melhores amigos, forasteiros em pessoas íntimas, não-parentes em parentes.

Nestes tempos “complexos e frágeis em que vivemos” (BAPTISTA, 2005) a hospitalidade aponta para um modelo de relação, a ser resgatado, no qual se compartilha cuidados e conhecimentos, na qual se aguarda e atenta para o outro.

Vale lembrar que as organizações hoteleiras que se abrigam sob a denominação hospitalidade, também não hesitam em definir hospitalidade como hotelaria.

Basta ver como a hospitalidade é complexa, não há um consenso único sobre o que ela significa, mas o que há de comum é que ela tem um significado de agregação de valor para os homens. Quem sabe bem de perto com o espírito e a ação de servir.

A alegoria da Hospitalidade

A seguir, apresenta-se interessante alegoria da hospitalidade, datada do século XVI, onde se pode verificar a presença de alguns elementos envolvidos nesta discussão.
Em primeiro lugar, nota-se a representação do sexo feminino, com uma postura benfazeja, de oferecimento, de acolhimento, tanto à criança, como ao peregrino.

Segundo Ripa (apud SCHÉRER, 1993), esses são seus hóspedes preferidos “um, não podendo ganhar a vida em razão de sua tenra idade e o outro só podendo conseguir com dificuldade, visto estar fora de seu país”. Este último, simbolizado à sua direita, com a concha que o identifica como piedoso do Caminho de Santiago e que, por extensão, pode-se identificar também com o turista, o que viaja ou vem pelos caminhos (per+agri-pelos campos).  À sua esquerda, à criança carente, representada sem vestes e que não pode buscar sua segurança e nem seu próprio sustento, oferece a cornucópia plena de frutas. 
Figura generosa, de gestos amplos, braços abertos num abraço acolhedor, com um meio sorriso-ambos-sorriso e abraço- exemplos, hoje, da hospitalidade.

Referências Bibliográficas 

- BAPTISTA I. Lugares de hospitalidade . In DIAS, C. (ORG) Hospitalidade, reflexões e perspectivas. São Paulo: Manole, 2002.
- BOFF, L. Virtudes para um outro mundo possível, vol I: Hospitalidade: direito e dever de todos.Petrópolis: Vozes, 2005. 
- CASTELLI, G. Hospitalidade na Perspectiva da Gastronomia e da Hotelaria. Editora saraiva, 2006.
- DARKE, J. GURNEY, C. Como alojar? Gênero, hospitalidade e performance. In LASHLEY, C. MORRISON, A. Em busca da hospitalidadeperspectivas para um mundo globalizado. Barueri, SP:Manole, 2004. 
- DERRIDA, J. DUFOURMANTELLE, A. Anne Dufourmantelle convida Jacques Derrida a falar de hospitalidade . Rio de Janeiro: Escuta, 2003.
- LASHLEY, C. MORRISON, A. (Orgs) Em busca da hospitalidade : perspectivas para um mundo globalizado. Barueri, SP: Manole, 2004. 
- MARCHES, J. S.; ANTONIO, R. B.; SOUZA, T. M. M. M.; CASTALDELLI, V. A. Companhias aéreas: o e-commerce e a hospitalidade virtual. 2008. 81 f. Monografia  (Especialização em Planejamento e Gestão da Hospitalidade em Turismo).     INTEGRALE SISTEMAS DE ENSINO/FECAP. Bauru, 2008.
- MONTANDON, A. Hospitalidade: ontem e hoje. In DENCKER, Ada F.M. BUENO; M.S. (Orgs) Hospitalidade : Cenários e Oportunidades. São Paulo: Pioneira-Thomson, 2003. 
- MOYA, Y. M. S. e DIAS, C.M.M.  HOSPITALIDADE: DA IMAGEM AO SIMBÓLICO.   Universidade Anhembi Morumbi –  Trabalho apresentado no VII Encontro dos Núcleos de Pesquisa em Comunicação. NP Comunicação, Turismo e Hospitalidade.
- SCHÉRER, R. Zeus hospitalier-éloge de l´hospitalité. Paris, Armand Colin, 1993. 
- SELWYN, T. Uma antropologia da hospitalidade. In LASHLEY, C. MORRISON, A. Em busca da hospitalidade : perspectivas para um mundo globalizado. Barueri, SP: Manole, 2004.
- TELFER, E. A filosofia da “hospitabilidade”. In LASHLEY, C. MORRISON, A. Em busca da hospitalidade : perspectivas para um mundo globalizado. Barueri, SP: Manole, 2004




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